Filip Leu, sessão 1

O início de tudo foi em Paris, em março de 2018, no famoso Le Mondial du Tatouage, uma das maiores convenções de tatuagem do mundo, que aconteceu no Grand Halle de la Villette, um enorme centro de convenções.

La Grand Hall de la Villette

No primeiro dia, pela manhã, os artistas ainda estavam organizando seus estandes, enquanto eu vagava pelos corredores do espaço para ver o que nos esperava. Era minha primeira vez em uma convenção tão grande.

Durante esse passeio, avistei o Filip em seu estande sozinho, organizando o display para a venda de suas famosas camisas, com a logo histórica do estúdio da sua familia, Leu Family’s Family Irons. Para os que não conhecem, Filip Leu é um tatuador nascido em Paris em 1967, que começou a tatuar aos 12 anos, sob tutela de seu pai Felix. Atualmente reside em Sainte Croixe na Suíça. Percorreu o mundo inteiro tatuando e sendo tatuado por vários grandes mestres, como Jonathan Shaw, Paul Rogers, Ed Hardy, Horiyoshi III, e por aí vai.

Aproveitei a oportunidade do artista ainda estar sozinho e me aproximei, iniciando uma conversa que foi intensificada assim que ele viu de relance a tattoo do meu braço esquerdo, arregalando os olhos e me perguntando “quem fez seu braço”? Quando respondi Maurício Teodoro, ele abriu um sorriso, pegou meu braço e girou em todas as posições possíveis, me enchendo de perguntas no processo, como “quantas sessões? O que ele fez freehand? Preto puro ou diluído?”. Terminando sua análise, já com mais pessoas ao nosso redor, ele “cutucou” uma figura ao lado, falando “uma tattoo do Maurício aqui!”. Essa figura era o Luke Atkinson (um tatuador alemão muito amigo também muito influente, muito amigo do Maurício e do Filip), que fez exatamente o mesmo procedimento de rodopiar meu braço e fazer um questionário.

Depois dessa pequena experiência, disse a ele que vi sua uma de suas tattoos ao vivo em meu amigo Lorenzo Gentil (fez o backpiece completo e várias outras complementando seu bodysuit), e que queria marcar um horário para fazer algo em mim, se possível. Por sorte, ele me disse que o Lorenzo teria uma sessão em outubro daquele mesmo ano, e que eu poderia acompanha-lo e, assim, começar meu projeto. Fui logo conversar com o Lorenzo, que também estava no evento e, algumas horas depois, voltamos ao Filip e batemos o martelo sobre o agendamento.

Backpiece feito pelo Filip no meu amigo Lorenzo Gentil (@lorenzogentil)

Essa convenção foi algo realmente marcante para mim, pois pela primeira vez eu estava vendo uma enxurrada de bodysuits e tattoos que antes so havia visto em fotos. A seleção de artistas presentes do evento era incrível, extremamente inspirador ver todos eles trabalhando ao vivo. Ainda tive a oportunidade de fazer uma peça com uma de minhas tatuadoras preferidas, a italiana Claudia de Sabe (@claudiadesabetattoo), que fez um Raijin em minha coxa direita.

Sete meses depois, estava em em Sainte Croixe junto com meu amigo Lorenzo. Chegamos ao estúdio no dia anterior ao de nossas sessões, Filip estava tatuando um cliente. Uma das experiencias mais incríveis foi entrar no estúdio, que eu havia visto em fotos inúmeras vezes, e o impacto ao vivo foi relativamente maior. Você é literalmente bombardeado de tudo relacionado a tatuagem, o tempo inteiro. Cheiro, música, quadros, pinturas, objetos exóticos, não tem espaço em branco nas paredes. O ambiente te engolfa para dentro de um outro mundo, a sensação é de entrar em um portal e sair em outro universo. Você vê que a coisa é realmente pra valer, que eles respiram isso 24 horas por dia.

Eu estava de casaco e ele pareceu não se lembrar de mim a princípio. Quando ficamos mais a vontade, tirei o casaco e ele me reconheceu na hora, vislumbrando novamente a tattoo do Maurício em meu braço (uma vez me disseram, não lembro quem, que ter uma tattoo do Maurício costuma abrir portas. Vivi essa experiência em minha relação com o Filip). Me chamou para ver mais de perto a tattoo que estava fazendo, e logo empurrou o batedor da máquina com o dedo, me mostrando o comprimento da agulha exposta, para fazer o preenchimento da cor sólida no cotovelo do seu cliente. Em seguida, explicou porque a posição que ele havia colocado seu cliente era a melhor para realizar o trabalho. Nesse momento ficou claro a receptividade e o amor dele pelo que faz. O mestre não quer simplesmente aprender, mas quer ensinar, e esse tipo de atitude não se vê hoje tão facilmente. Passamos uma tarde agradável no Estúdio e depois fomos ao hotel, nos preparar para o dia seguinte, onde teríamos nossas sessões.

Depois de um café da manhã reforçado no hotel, eu ainda nem sabia o que iria tatuar quando, chegando ao estúdio, ele me indagou “o que você pensou em tatuar?”. Instantaneamente respondi “O que você quiser, um Dragão talvez?”, tendo “vou adorar fazer um Dragão” como resposta. Nisso, ele me entregou um notebook, com uma pasta aberta e milhares de referências de imagens de dragões de todos os tipos, pedindo para eu separasse as que eu mais gostava. Depois de alguns minutos, separei 3 ou 4 imagens que me chamaram mais atenção. Uma delas, ele olhou e disse que seria interessante trabalhar em cima, pensando em um fundo mais aberto e com mais pele exposta. O plano inicial era fazer somente a parte de cima do torso, o que eventualmente evoluiu para o torso completo, descendo para a coxa esquerda (mais sobre esse projeto em um post futuro).

Depois de fazer 3 horas de sessão no Lorenzo, chegou minha vez. Ele pegou a referência que escolhemos e fez um desenho pequeno (de cerca de 10cm de largura), bem simples e direto ao ponto. Em seguida, ampliou o desenho na máquina de Xerox e fez o dacalque.

Desenho original da minha tattoo, que depois enquadrei junto a um pequeno poster e uma foto da nossa primeira sessão

Sailor Bit, que trabalha junto com Filip, logo após ver a imagem estampada colado no meu peito, fez uma piada de que o Dragão estava “banguela”, na parte de cima da boca. Todos riram bastante, Filip pegou uma caneta sharpie e traçou os dentes direto no meu peito, começando a tattoo logo após. Nossa primeira sessão foi breve, durando somente uma hora, onde ele traçou tudo e fez uma leve sombra.

Primeira sessão

Essa sessão foi um marco para mim, muita coisa mudou na minha maneira de pensar em relação a tattoo. Estamos muito acostumados ao nosso meio, ficamos confortáveis até demais, e para mudar isso temos que viajar e buscar novas perspectivas e experiências. Isso foi algo que aprendi nessa minha primeira ida ao Filip, e que foi se intensificando nas sessões seguintes. A próxima ficou marcada para o ano seguinte, e irá aparecer aqui em um post futuro.

Obrigado pela leitura.

  • Filip Leu, sessão 1
  • Collab com Maurício Teodoro
  • Projeto de Tattoo – Dragão Ancião
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